No Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, o Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS) aborda a evolução histórica e os novos paradigmas do uso eficiente da água no ambiente construído. O Prof. Orestes Marraccini Gonçalves, conselheiro curador e presidente do CBCS, destaca que o setor passou por uma transformação profunda desde os anos 1990, migrando de um cenário de desperdício para uma organização institucional e tecnológica, mas que ainda exige avanços na gestão da qualidade e na conscientização em relação aos usos.
Engenheiro e Doutor em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (USP), Orestes foi coordenador do QUALIHAB da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado de São Paulo, e do PURA – Programa de Uso Racional da Água do Estado de São Paulo. “Não basta só a gestão da demanda da água, do consumo de água; cabe também a gestão da qualidade da água”, enfatiza.
Conquistas e o marco da medição individualizada
A trajetória do uso racional da água no Brasil foi delineada por programas fundamentais no final da década de 1990, como o PURA-SP e o Programa Nacional de Combate ao Desperdício de Água (PNCDA), criado pela Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades. Segundo o Prof. Orestes, essa organização permitiu uma mudança tecnológica e institucional sem precedentes. Um exemplo emblemático foi o compromisso do setor em retirar do mercado bacias sanitárias de 9 e 12 litros, substituindo-as pelo padrão de 6 litros em apenas quatro anos, atendendo às metas mobilizadoras dos programas setoriais de qualidade, o que gerou uma redução drástica no consumo.
Outro ponto importante ocorreu em 2007, ano de fundação do CBCS e de criação do ProAcqua – Programa de Qualidade e Produtividade de Sistemas de Medição Individualizada de Água pela Sabesp, que organizou a medição individualizada de água em edifícios. “O CBCS teve um papel importante nesse processo. A primeira ação do CBCS nessa área foi a organização da Norma Técnica Brasileira, integrando água fria com água quente, regrando e estabelecendo parâmetros de uso eficiente da água”, diz, referindo-se à NBR 5626 – Sistemas Prediais de Água Fria e Quente.
A questão técnica e as tecnologias de medição foram organizadas, estabelecendo a normalização nacional e instruções técnicas, criando um ambiente de desenvolvimento que evolui a cada dia. “Atualmente, praticamente não se faz mais um edifício no Brasil que não tenha medição individualizada”, complementa o professor, membro do CTECH – Comitê Nacional de Desenvolvimento Tecnológico da Habitação do Ministério das Cidades.
Gestão da demanda
Em relação à gestão da demanda de água, Prof. Orestes destaca a importância da questão tecnológica, por meio da regulamentação e normalização, e, fundamentalmente, da questão humana, considerando os usos da água.
Programas específicos para o uso racional da água, com monitoramento do consumo, identificação e correção de vazamentos e a substituição de metais e bacias sanitárias por modelos eficientes são essenciais. Ele exemplifica com a iniciativa da USP, que conseguiu reduzir em 45% o consumo médio de água, associando o monitoramento do consumo, a adoção de equipamentos economizadores e a abordagem dos hábitos de consumo entre os usuários das edificações. “O consumo mensal reduziu de 140 mil m³ de água por mês para cerca de 80 mil m³”, detalha.
Entre as ações do CBCS, destaque para o programa Cidades Eficientes, desenvolvido a partir de 2018 com apoio do Instituto Clima e Sociedade. Entre as diversas iniciativas do programa estão a plataforma de gestão do consumo de energia, água e gás desenvolvida pelo CBCS e já implementada em Florianópolis (SC), Rio de Janeiro (RJ), Palmas (TO), Rio do Sul (SC) e Teresina (PI), a criação de manuais de compras eficientes e o desenvolvimento de metodologias de capacitação diferenciadas, como as gincanas energéticas e de uso de água aplicadas a escolas e outros prédios municipais.
O futuro: o edifício como produtor de água
O cenário atual aponta para uma transição: além de gerir a demanda (consumo), deve-se focar na gestão da qualidade da água. Com o avanço do reúso de águas cinzas e o aproveitamento de águas pluviais, o administrador do edifício assume um novo papel. “A produção de água não potável ocorre no interior do edifício. O condomínio assume a função e as responsabilidades de uma concessionária que trata a água e a distribui”, explica.
Entretanto, essa evolução traz desafios técnicos e culturais que precisam ser superados:
- Controle de qualidade: é preciso garantir parâmetros para águas não potáveis destinadas a fins como a lavagem de garagens e bacias sanitárias.
- Evitar conexões cruzadas: há risco de contaminação se as tubulações de água potável e de reúso se misturarem. Recomenda-se o uso de materiais distintos para cada sistema, a fim de reduzir riscos.
- Cultura de manutenção: a operação de sistemas complexos de tratamento em condomínios exige síndicos e instaladores mais preparados.
Integração e substituição massiva
Para o futuro, o presidente do CBCS vislumbra uma maior integração entre os sistemas hidráulicos dos edifícios e os sistemas públicos de água e esgoto, incluindo soluções distritais. Um conjunto de casas e edifícios poderia ser abastecido por um sistema regional, mantido pela concessionária em cogestão com os usuários.
Uma medida importante, que já se mostrou viável, é a substituição massiva de equipamentos em edifícios antigos, especialmente das bacias sanitárias por modelos mais econômicos. “Isso é interessante. É economicamente viável, mas algumas questões legais, técnicas e institucionais devem ser resolvidas”, pontua.
